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Não é fácil perder a audição

Publicado por Fonaudio em 20 de novembro de 2020

Não é fácil perder. Não é fácil perder a audição, a visão, os movimentos das pernas, dos braços. Não é fácil perder a fala, perder a capacidade de respirar sozinho, perder a cor dos cabelos, perder as lembranças… não é fácil perder o emprego, perder uma promoção, uma oportunidade de crescer. Não é fácil perder quem amamos, ter que lidar com a rejeição, com o medo do novo, com o medo do passado. Não é fácil. Nós sabemos, é muito difícil, e é doloroso, mas o que seria possível fazer para impedirmos todas essas situações? Podemos, obviamente, fazer a nossa parte: cuidar da nossa saúde, sermos precavidos, aproveitar nossas vidas com moderação e desfrutarmos da presença de pessoas queridas. Contudo, há coisas que não podemos controlar. Não podemos, por exemplo, controlar o que o outro pensa de nós. Da mesma forma, não podemos controlar os sentimentos ou a saúde de alguém. Assim, a vida não nos permite tomar as rédeas… e tudo bem não ter o comando o tempo todo.

Mulher triste com a mão no rosto. (Reprodução/Freepik)

A pedra que Drummond eternizou na década de 20 poderia ter sido só uma pedra mesmo… dessas que a gente sempre tropeça pelos caminho, mas, aqui, o significado vai além. O poeta, neste caso, se referiu às dificuldades que enfrentamos durante a vida.

No meio do caminho tinha uma pedraTinha uma pedra no meio do caminho (…)

Nunca me esquecerei desse acontecimentoNa vida de minhas retinas tão fatigadasNunca me esquecerei que no meio do caminhoTinha uma pedra.

De acordo com ele, esse impasse jamais será esquecido. Isso, porque as dificuldades, além das cicatrizes (sejam elas físicas ou emocionais), também carregam aspectos positivos, mas os ”benefícios” apenas são vistos quando a dor cessa. No meio do pânico estamos sempre vestidos com vestes de medo e frustração e, portanto, não somos capaz de ver. Nesse momento, tudo o que enxergamos é angústia e dor… e a psicologia explica esse fenômeno:  há o luto para todas as situações da vida.

O primeiro estágio é o da negação. É difícil acreditar que isso esteja acontecendo com você, não é? A recusa é natural. ”Eu não mereço passar por isso.” Aqui, é preciso entender que não é uma questão de merecimento, ok? Não precisamos carregar o peso da culpa ou um fardo que não é nosso, ainda que tenhamos feito algo ”passível de punição”. A natureza do homem é vingativa e, por conta disso, acreditamos que a vida também é. Nessa fase, nos encontramos em choque e entorpecidos pela situação, e chegamos a questionar se conseguiremos continuar, não é verdade? Por mais duro e difícil que seja, aceite. O início do processo de cura se dá na aceitação, mas não se cobre, apenas saiba que é possível lidar com isso.

O segundo sentimento a dominar é o da raiva. Sentimos raiva de tudo e todos: da nossa situação, de nós mesmos, dos nossos pais, da vida… do mundo. A rebeldia, nesse estágio, já ultrapassou a negação. Entender o que causa esse sentimento é passo fundamental. Por trás da raiva, há dor, mas questione-se. Pense sobre o que você está pensando e, mais uma vez, aceite.  

A terceira fase é a da barganha. Assim que a negação e a raiva foram embora, começamos a ”negociar”. Por aqui, é comum pensamentos como: ”e se eu fizer isso?”. Tentamos, de todos os modos, mudar a situação. Barganhamos conosco, flertamos com a religião, com a ciência e com o meio que estiver disponível… tudo para nos livrarmos daquele momento. Essa é uma das fases com maior possibilidade de ressignificação. A melhor maneira de lidar com ela é se conscientizando de que, na verdade, o que se esconde por trás da barganha é a culpa por acreditar que poderia ter feito algo de diferente, algo que pudesse evitar essa dor. É preciso entender que pensar assim é permanecer preso ao passado e, infelizmente, o tempo é uma grandeza física que só anda para a frente.

Contar com a ajuda de alguém pode ser essencial para o processo de cura. (Reprodução/Freepik)

Depois de percebemos que o tempo não volta, vem a percepção de que de fato perdemos. A quarta etapa do processo de luto, marcada pela depressão, traz a certeza de uma perda irreparável. É comum nos sentimos desamparados e incompreendidos, e a melhor forma continua sendo aceitar. Pode ser cruel ler isso, não é mesmo? Mas, reiterando o que foi dito no começo, o que é possível fazer para evitar? Há circunstâncias que não controlamos, e que jamais conseguiremos controlar, pelo simples fato de serem situações incontroláveis.

O último estágio é marcado pela aceitação. Finalmente somos capaz de aceitar. É claro que aqui não se faz um cenário feliz, mas o sofrimento começa a ser suavizado. Nesse ponto, estamos mais tranquilos e a paz começa a ultrapassar a negação, a rebeldia, o autoengano e o desespero. Aqui, temos maior capacidade para perceber o momento com clareza e congruência, e aprendemos a conviver com o resultado da situação.

Durante todo esse processo é importante ressaltar que não somos iguais. Portanto, é possível que cada um passe por essas etapas de forma singular, e caso seja necessário, contar com a ajuda de um profissional se faz uma boa ideia. Não existe milagre e não existe um passo a passo para se livrar da dor da perda. O essencial é entender que podemos passar por isso.

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