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Deficiência auditiva e inclusão social

Publicado por Fonaudio em 09 de agosto de 2020

A audição é um dos mais importantes sentidos do ser humano. Com ela, pode-se saber as condições do meio ambiente, mesmo de olhos fechados. É ainda devido à audição que os humanos habitualmente se comunicam. Toda cultura humana baseia-se em comunicação, sendo a maior parte dela feita por padrões sonoros ou formas de representação dos mesmos.

Segundo Helen Keller: “Os problemas da surdez são mais profundos, mais complexos e mais importantes que os da cegueira. A surdez é o maior dos infortúnios, a perda mais vital dos estímulos: o som da voz que nos traz a linguagem, desencadeia-nos os pensamentos e nos mantém na companhia intelectual dos homens.”

A audição desempenha papel fundamental na aquisição e desenvolvimento da linguagem e fala na criança e, no adulto, a possibilidade e a manutenção da sua convivência em sociedade. A privação sensorial auditiva não só compromete o desenvolvimento de habilidades específicas, mas também o potencial do indivíduo de entender e ser entendido e com isso prejudica o desenvolvimento dos processos cognitivos, afetivo-emocionais, escolares e sociais. Não podemos deixar de pensar, também, nos efeitos da privação sensorial no cérebro. O que poderia acontecer nas vias auditivas e córtex auditivo de uma pessoa que não ouve e que consequentemente não utiliza estas áreas efetivamente?

A deficiência auditiva foi considerada como uma doença severamente incapacitante por muitos séculos. A fim de minimizar seus efeitos, sistemas de amplificação sonora vêm sendo desenvolvidos e aprimorados. Esses sistemas de amplificação são popularmente conhecidos como próteses auditivas.

De uma maneira simplificada, podemos entender as próteses auditivas como um sistema que funciona da seguinte maneira: capta o som do meio ambiente, aumenta sua intensidade e o fornece, amplificado, ao usuário. Para que este processo aconteça torna-se necessário que a prótese auditiva possua um microfone (que capta o som e o transforma em energia elétrica), um amplificador (que aumenta a intensidade do som) e um receptor (que transforma o som novamente em energia acústica e o envia a orelha do usuário). É claro que uma prótese não pode substituir uma orelha, mas pode auxiliar muito pessoas que por algum motivo não ouvem.

A deficiência auditiva atinge milhões de brasileiros por uma série de fatores, tais como: hereditariedade, acidentes, traumas, doenças, velhice e assim como a deficiência visual, a deficiência auditiva também apresenta graus e tipos de perda que irão caracterizar individualmente o modo de tratamento.

No Brasil, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, existem cerca de 2,25 milhões de brasileiros com dificuldades de audição. Para garantir a todos um atendimento especializado, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva. Duas portarias ligadas à Secretaria de Atenção à Saúde do ministério normatizam a nova política: a 587, de 07 de outubro de 2004 e a 589, de 08 de outubro de 2004.

É na infância que o ser humano está apto a desenvolver seus conhecimentos e habilidades e, para tal, necessita receber grande quantidade de estímulos do ambiente em que vive. A audição é principal meio pelo qual a linguagem verbal é adquirida. Portanto, as crianças devem ser adaptadas com uma prótese auditiva o mais precocemente possível, tão logo o diagnóstico da deficiência auditiva tenha sido efetuado, evitando assim os efeitos da privação sensorial sobre o desenvolvimento global e de linguagem.

Já entre a população adulta, são dois os aspectos que determinam a procura de ajuda: a autopercepção do déficit auditivo e grau da perda de audição. A decisão de usar próteses auditivas não é necessariamente feita com base no grau da perda de audição, mas de acordo com o grau de sofrimento experimentado. Geralmente, apenas quando é muito grande a limitação, seja social, econômica, financeira ou psicológica, o indivíduo se torna realmente um candidato voluntário ao uso do aparelho de amplificação sonora individual (AASI).

A seleção do aparelho auditivo requer uma equipe multidisciplinar, com otorrinolaringologista, fonoaudiólogo, pediatra, geriatra, psicólogo, etc. Cabe ao otorrinolaringologista garantir o diagnóstico apropriado, indicando o grau e a natureza da perda auditiva, indicando a protetização. Deve também acompanhar o paciente, certificando-se das condições otorrinolaringológicas que possibilitem o melhor aproveitamento do aparelho de amplificação e verificando possíveis variações do ponto de vista auditivo e médico geral. Já ao fonoaudiólogo, cabe a seleção e adaptação do aparelho auditivo.

Infelizmente, ainda existem muitos preconceitos sociais com relação as próteses auditivas, o que faz com que as pessoas que dela necessitem tenham acanhamento em usá-las. Na verdade, usar próteses auditivas é como usar óculos. Algumas pessoas têm a falsa impressão de que a sua surdez pode passar despercebida, na verdade, a surdez aparece muito mais do que as próteses auditivas.

Outra consideração importante é que a maioria dos deficientes auditivos têm a capacidade intelectual preservada, portanto, está apta a adaptar-se plenamente à sociedade, porém, em virtude da dificuldade de comunicação, acaba marginalizada, enfrentando problemas como insegurança, dependência, sentimento de menos-valia, depressão, isolamento social e não adaptação ao mercado de trabalho.

Neste sentido, a protetização é fator fundamental na reintegração e inclusão social do deficiente auditivo, pois de acordo com Wisnik em seu livro O Som e o Sentido: “O som é um objeto subjetivo que está dentro e fora do corpo que não se pode tocar, mas que nos toca com enorme precisão.”

Artigo publicado na revista Medicina em Goiás

                                        Eduarley Max Santos da Silva Belle

                                                  Otorrinolaringologista

                                                        CRM-GO 9499

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